Sri Lanka: poço de turbulência esquecido

 


Neste artigo Carlos Sousa Cordeiro expõe e comenta a atual situação no Sri Lanka, país insular à sul da Índia, muitas vezes ignorado pela média ocidental, nomeadamente em momentos tão preocupantes como o que são agora vividos.


Sri Lanka, um estado insular ao sul da Índia, quase ligada a esta por uma ponte natural, os mais crentes até dizem ser na realidade uma ponte construída pelo deus e avatar de Vishnu, Rama. Este país conhecido pelos portugueses como Taprobana ou Ceilão é muitas vezes esquecido no contexto nacional português e até mesmo no internacional, provavelmente tendo a sua ultima grande relevância na guerra civil finalizada em 2009, que dentro das suas muitas vítimas está o filho de Indira Gandhi, que também serviu como primeiro-ministro como mãe e sofreu o meso destino: Assassinado. E ainda pelos atentados durante as celebrações da Páscoa em 2019.

Mas o tema deste artigo não se trata destas figuras políticas, mas sim da atual situação no Sri Lanka, este país envolvido nas recentes disputas de influência e poder regional entre a Índia e a China, enfrenta uma das maiores crises alguma vez vistas.

A economia esta em colapso, a inflação cada vez mais alta, os bens essenciais como alimentos e energia estão cada vez mais escassos e ainda há falta de combustíveis e apagões com mais de 13 horas por todo o país. A estes fatores juntam-se a corrupção e má governação vivida no Sri Lanka, nomeadamente sob a dinastia politica dos irmãos Rajapaksa, mas também a falha brutal nas políticas de agricultura sustentável que o país aplicou em massa e a gigantesca dívida que tem para a China, que ja lhe valeu um porto de importância estratégica apreendido por esta nova potência mundial, obrigando este país insular em crise económica, financeira, energética, alimentar e política a dirigir-se aos braços de outro gigante, a Índia.

Sem fim na resolução dos problemas, o povo sri lankês (tanto cingaleses como tâmiles), encontra-se farto, enchendo as ruas do país com protestos e manifestações que cada vez mais se tornam violentas, nestes ultimas dias atos extraordinários aconteceram. 

Os manifestantes invadiram a residência oficial do presidente da república, Gotabaya Rajapaksa, obrigando-o a fugir, estando agora sob proteção das forças armadas do sri lanka, num local secreto e já se demitiu do cargo que ocupará. Por outro lado o Primeiro-Ministro do país reuniu-se de emergência com as altas figuras do país e também teve a sua residência, não a oficial, mas a privada invadida e incendiada por manifestantes, este também já se demitiu do cargo e o Sri Lanka mergulha num caos político e numa instabilidade há muito não vista, ao mesmo tempo que tenta negociar uma ajuda internacional com o FMI.

Meses de protestos e problemas não resolvidos levaram ao inicio de uma revolta ou até mesmo revolução, sendo imprevisível o que acontecerá daqui a diante. Contudo estes acontecimentos podem juntar-se ao já referido aqui neste artigo, a disputa entre a Índia e a China, uma destas potências poderá tentar influenciar o futuro político e económico deste Estado, tornando-o mais próximo as suas esferas de influência, com claras e rápidas movimentações já feitas pela Índia, que apresenta-se pronta para ajudar o Sri Lanka e recuperar o país, por outro lado a China parece ter desistido ou dado uma pausa nas ajudas/apoios ao Sri Lanka, seja por medo de ser associada a situação pobre que o país hoje enfrenta ou de ser culpada mesmo devido as suas atividades na ilha. 

Os futuros tempos que o Sri Lanka enfrentará serão deveras interessantes e poderão ditar algumas mudanças mesmo que pequenas, significativas no Sul da Ásia e na corrida de influência entre os gigantes indianos e chineses, pudendo significar um contra-ataque indiano em termos de influência.

Contudo, resolver a situação política do Sri Lanka, deverá ser antes de tudo uma das primeiras questões a ser tratadas, pois qualquer ajuda financeira e económica que seja dada, precisará de um governo para planear, estruturar e aplicar as medidas e ajuda fornecida e assim puder recuperar a estabilidade política e económica que o país a tanto almeja e deseja. 


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